Sou Ava
(ser humano/indígena). É fundamental que a sociedade compreenda que não somos “índios”,
termo estigmatizado pela colonização, mas sim Povos Indígenas, conforme estabelecido pela Lei 14.402/2022. Esta mudança visa
valorizar nossa diversidade cultural como Povos Originários.
Pertenço à etnia Guarani Nhandeva/Kaiowá, sendo Kaiowá por parte de mãe e
Nhandeva/Guarani por parte de pai. Minha identidade é tecida pelas parentelas
Escobar, Martins, Vera e Soares, nomes que carregam a história viva da
resistência em nosso território.
Nasci na Reserva Indígena de Caarapó, um
território onde, desde 1925, meus antepassados construíram formas profundas de
sobrevivência contra o confinamento imposto. Minha história carrega as memórias
de meus avós, que trabalharam nos ervais da Companhia Mate Laranjeira, e de
meus pais, Virginio Soares e Lauriana Escobar.
Minha chegada ao mundo ocorreu numa noite de
chuva, por volta das 23:00 horas, sob a luz de uma lamparina de araity
(cera de mel). Fui amparado pelas mãos de minha avó em um parto tradicional que
respeitou os ciclos da natureza.
Naqueles primeiros sete dias, o isolamento foi
sagrado. Fiquei sem contato com outros parentes para proteger minha tesa
poti͂ (alma limpa/visão limpa). Como explica minha tia Luiza Rosa, o
recém-nascido não pode ser “contaminado” por energias externas de quem não está
preparado espiritualmente.
Após esse resguardo, fui preparado para o ñemongarai
(batismo), que ocorreu seis meses depois na casa do meu tio Hipolito Martins,
na região Mbokaja. Esse ritual reuniu grandes rezadores, como Avelino Quinhone,
Porfirio, Angela, Dirto e Jorge Paulo.
O ñemongarai é o ato de nominar a criança
para garantir seu status físico e espiritual. Durante três dias, a reza foi
constante através do porahéi ñemoiru͂ (rezas partilhadas), onde os
rezadores demonstram respeito e afastam espíritos perversos.
Naquela época, havia muito preconceito e
acusações de “macumba” vindas de fora, mas o que fazíamos era estabelecer a
reciprocidade espiritual para fortalecer nossos saberes. Era a união da
religiosidade própria para encorajar a espiritualidade indígena.
O fundamento de nossa ação é o py’a porã
(coração bondoso e tolerável). Nas rezas, usamos folhas de cedro e a luz do araity,
conectando o mundo terreno ao sobrenatural. Minha madrinha, Leonilda (kuña
morotĩ), me tomou nos braços para que o teko resãi (vida saudável)
me acompanhasse.
Foi o rezador Avelino Quinhone quem revelou meu
nome indígena: Kunumi Jeguaka’i
(Menino Pequeno Cocar). Esse nome é o resultado de uma construção espiritual
com Tupã Rusu, pedindo que minha vida fosse repleta de teko porã
(o bom modo de ser).
Segundo nossa concepção, o Ava precisa de uma
alma com bom som (ánga ayvu porã). O guardião da vida, o pássaro guyra,
manifesta em nós um trajeto seguro. Aprendi que a trajetória de um indivíduo se
configura na alma antes mesmo de se realizar na terra.
Cresci sendo cultivado nessa cultura tradicional,
recebendo visitas de parentes Nhandéva de Porto Lindo e Kaiowá da própria
Reserva. Minha mãe absorvia esses saberes sobre remédios, língua e o jeito de
lidar com a vida, moldando minha educação tradicional.
Minha família enfrentou adversidades provocadas
pela colonização e tentativas de dizimação. Meu tio Hipolito Martins relata
que, quando moravam perto de Juti/MS, foram expulsos por capatazes de fazendas
sob ameaça de armas por se recusarem a trabalhar aos domingos.
Meus avós maternos e paternos (como minha avó
Severiana Vera, de 83 anos) viveram o tempo da fartura nos territórios
tradicionais antes de serem empurrados para a Reserva. Eles vieram para a
região de Te’yikue buscando segurança contra a violência dos colonos brancos.
Na Reserva, foi necessário estabelecer alianças e
negociações constantes com instituições como a FUNAI, a Missão Caiuá e o CIMI.
Aprendemos a viver o teko joavy — um modo de ser diferente, em constante
reconstrução diante do preconceito que tentava demonizar nossa cultura.
Meu pai, Virginio Soares, conta que nossa família
escolheu aderir ao evangelho sem nunca abandonar os saberes ancestrais. Para
ele, foi uma forma de superar problemas históricos e “sentir a luz do
protagonismo caminhando junto” de nós.
Minha avó Lauriana Escobar também viu na
conversão uma estratégia de sobrevivência e união familiar. Mesmo frequentando
a igreja, ela nunca deixou de passar a sabedoria indígena, praticando rezas em
momentos de necessidade ou quando procurada por pesquisadores.
Essa dualidade entre a fé cristã e a tradição
indígena gerou o que chamo de fortalecimento de saberes diante da intolerância.
Muitos rezadores que haviam se convertido retornaram às práticas tradicionais,
formando novos grupos de reza (oñembo’ea kuéra).
Registro aqui que nós, os Guarani da Reserva
Te’ýikue, fomos por muito tempo invisíveis nas pesquisas acadêmicas. Nossa
história foi encoberta, mas estávamos lá, criando novas possibilidades de
sobrevivência e buscando o teko porã (bem viver) em meio ao conflito.
Portanto, minha trajetória acadêmica que se segue
é filha desta resistência. Sou fruto de um povo que
negociou, rezou e lutou para que eu pudesse, hoje, contar nossa história com a
voz de quem conhece o território desde o nascimento sob a luz da lamparina de
cera de mel.
A Jornada pela Educação
Minha entrada no ensino superior, em 2011, foi
marcada por um misto de esperança e grande desafio. Ingressei no curso de Pedagogia em Amambai, acreditando que
ali iniciaria minha formação para servir ao meu povo através do ensino.
No entanto, a estrutura da sociedade e as
barreiras econômicas logo se impuseram. As dificuldades financeiras daquela
época — uma realidade dura e persistente que afeta tantos jovens indígenas —
tornaram-se um obstáculo intransponível naquele momento.
Com muita dor, fui forçado a interromper esse
sonho temporariamente. Mas, como aprendi com meus antepassados na Reserva, o
recuo não era uma desistência, era apenas um tempo de espera para ganhar fôlego
e buscar novas estratégias de sobrevivência e estudo.
A oportunidade de retomada veio através de uma
conquista histórica e política dos movimentos indígenas: o curso Teko Arandu (que hoje integra a
FAIND/UFGD). Esse curso não era apenas uma faculdade, mas um símbolo de
resistência e de direito à educação diferenciada.
Em 2011, prestei o vestibular para o Teko Arandu.
O resultado foi uma afirmação da minha capacidade e dedicação: conquistei uma
posição entre os 10 melhores colocados,
garantindo minha entrada com honra e determinação.
Durante cinco anos, mergulhei na área de Ciências Humanas e Sociais. Foram anos
de intenso aprendizado, onde pude confrontar os saberes acadêmicos ocidentais
com a cosmologia e a realidade vivida no chão das nossas aldeias.
Antes mesmo de concluir a graduação, a
necessidade e a vocação me chamaram para a sala de aula. Em 2012, iniciei minha
jornada como professor leigo na
própria Reserva Te’yikue, retribuindo à minha comunidade os primeiros frutos do
meu conhecimento.
Em 2013, meu caminho como educador me levou para
além dos limites de Caarapó. Mudei-me para a aldeia Guaimbe Pery, no município de Laguna Carapã, onde atuei por seis
meses, conhecendo de perto as particularidades de outras parentelas e
territórios.
Essa itinerância foi essencial para minha
formação como Ava e como profissional. Logo depois, segui para Dourados, onde
trabalhei por mais seis meses na região da Aldeia Bororo, um espaço de intensa dinâmica social e desafios
educacionais.
Na Aldeia Bororo, atuei nas escolas municipais Lacu’i Isnarde e Agustinho. Cada aluno que passou por
mim naquelas salas de aula reforçava minha convicção de que a educação indígena
precisa ser feita por nós e para nós, com qualidade e respeito.
A formação no Teko Arandu, concluída finalmente
em 2017, não foi apenas um diploma na parede. Ela foi o alicerce sólido que me
permitiu competir em pé de igualdade nos espaços de seleção pública e
profissional.
Ainda em 2017, colhi um fruto importante dessa
dedicação ao ser aprovado no concurso
público para Agente de Saúde. Essa experiência foi vital para
compreender a relação entre o bem-estar do corpo e a defesa do território.
No entanto, o chamado da História e da sala de
aula continuava pulsando forte. Minha trajetória como pesquisador e militante
da causa indígena exigia que eu retornasse ao ensino para ajudar a formar as
novas gerações de jovens Ava.
Em 2019, alcancei uma nova vitória: fui aprovado
no processo seletivo para Professor de
História. O destino não poderia ser outro senão a minha casa, a E.M.I. Ñandejára Polo, em Caarapó.
Atuar na Ñandejára Polo é o fechamento de um
ciclo e o início de outro. É o lugar onde transformo as memórias de meus pais e
avós em conteúdo didático, combatendo as visões distorcidas que os livros
tradicionais ainda trazem sobre nós e conhecendo cada vez mais o mundo
ocidental.
Na escola, trabalho para que a educação seja,
acima de tudo, uma ferramenta de
resistência e para fortalecer o bem viver e refletir sobre o futuro. Não
queremos apenas que o jovem indígena aprenda a ler e escrever, mas que ele
saiba ler o mundo e defender seus direitos e criar condições para a permanência
do bem viver.
Valorizar nossa cultura dentro do currículo
escolar é uma forma de garantir o teko porã (o bem viver). É ensinar que
nossa língua e nossos saberes ancestrais têm o mesmo valor científico que
qualquer outra disciplina.
Olhando para trás, vejo que cada interrupção e
cada mudança de aldeia foram degraus necessários. Se em 2011 a falta de
dinheiro tentou me parar, a força do coletivo e do Teko Arandu me impulsionou
para onde estou hoje.
Minha trajetória na educação é a prova de que o
acesso à universidade é um direito fundamental que transforma trajetórias de
vida. De professor leigo a Doutor, o caminho foi pavimentado pela fé de minha
família e pelo apoio dos meus parentes.
A Consolidação Acadêmica
Mesmo diante de desafios estruturais, segui para a pós-graduação
na UFGD:
O Significado desta Conquista
Este título de Doutor não é apenas um mérito
pessoal; é uma resposta às histórias que tentaram nos colocar como
\"inferiores\" ou \"incapazes\". Como pesquisador indígena,
busco dar voz às narrativas de meus tios, primos e anciãos, mostrando que nossa
sobrevivência na Reserva é fruto de constante negociação e inteligência
política. Esta Moção de Congratulações celebra, portanto, a presença do povo
Guarani e Kaiowá nos espaços de mais alto saber acadêmico.